sexta-feira, 25 de julho de 2014

Começando a se recuperar... Maio/ 2014

Esta foto foi tirada em 23 de maio de 2014. O Deda está sentado já (não mais deitado o dia todo) e está se reconhecendo, voltando a perguntar algumas coisas. A fala dele ainda estava muito enrolada, não conseguíamos entender quase nada do que ele tentava se expressar.
Em apenas dez dias em casa recebendo carinho, atenção, cuidados  - não os mais profissionais pois tivemos que aprender a fazer quase tudo e erramos bastante no começo - mas acima de tudo recebendo muito amor o resultado começou a aparecer!

"E, sobre tudo isto, revesti-vos de amor, que é o vínculo da perfeição. (...)
 E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens,
Sabendo que recebereis do Senhor o galardão da herança, porque a Cristo, o Senhor, servis." 
Colossenses 3:14, 23-24


Conhecendo nossa família.

Este vídeo foi criado em homenagem aos 80 anos do Deda, em 2001.
Ele conta de uma maneira muito bonita a história dos nossos antepassados ao chegarem ao Brasil e um pouco da nossa fé.
https://www.youtube.com/watch?v=WAD0HwwEZgs&feature=share
https://www.youtube.com/watch?v=oX4rKOvuYMk
https://www.youtube.com/watch?v=Xrmi_NCuBaA

Sobre conviver com um idoso.

Este texto escrevi alguns meses antes do Deda ir para o hospital e ficar internado (março/2014). 

Sobre conviver com um idoso.

Chega, tira o sapato apertado, senta. liga o computador. Vai à geladeira e pega logo algo rápido pra tirar a fome. Abre a caixa de e-mail e começa a responder. Abre a agenda e vê ainda o que precisa ser feito para fechar o dia, ou começá-lo. De repente se depara com um sorriso leve e o olhar perdido de alguém que chama sua atenção pela simplicidade da pergunta: ''Esta é a casa de quem?'' ou ''Que dia é hoje?''. Ele não reconhece onde está, mas sabe quem eu sou e, logo se sente em casa, independente da minha resposta.
Então você percebe que, casa é um amontoado de tijolos (ou madeira no meu caso) mas lar é se sentir acolhido e bem-vindo, independente de onde e como esteja.
Isto te faz pensar que tudo aquilo que você estava se empenhando tanto e tanto, passará. Ou melhor, já passou e levou um bom tempo do seu tempo.
E nesta palavra tempo então, você descobre uma infinidade de sentidos e significados que os números do relógio não são suficientes de carregar.
Ele senta perto de você, faz uma brincadeira com sua roupa do dia seja pela cor, seja pelo que está escrito na camiseta e isso te desconcerta toda, pois ele foi sensível ao olhar pra você e ver como você está, eu não sou só mais um número para ele.
As vezes vejo-o olhando para o infinito, para o nada, perdido também no seu passado. Tentando se reconectar com a vida de hoje e de repente canta uma musica da infância dele. E logo emenda uma história de alguém que eu não sei quem é, mas que fico imaginando: a cena, a pessoa, o ocorrido pelos detalhes que ele narra. As vezes, quando ele termina de contar logo poe um conselho sobre Deus, sobre a vida, sobre o mundo. Depois que aplicamos a insulina ele diz: ''atacar!'' e come tudo. devagar e com muita vontade. aproveita cada grãozinho do arroz e do feijão. Quando termina, olha para mim e diz: ''Muito obrigado!'' Mesmo se o que ele comeu foi Filet mignon ou ovo frito.
Não gosta de barulho, de som muito alto. Não gosta muito da tv. Prefere e muito, sempre pede quando me vê na frente do computador: "esta caixa aí toca Tchaikovsky? Poe para eu ouvir.''
Depois de 15 minutos de musica maravilhado, ele pede: ''poe de novo?''
Nesta hora ele se perde de novo no tempo e cada minuto tem parece que, sabor para ele.
Os 92 anos lhe trouxeram o que eu tento aprender: conquistar pessoas ao ponto de se sentir em casa pelo simples fato de estar perto delas; olhar nos olhos; tirar algo bom do que lhe aconteceu mesmo se a história não foi tão bonita assim; saborear uma bela música; agradecer pelo que se tem mesmo se isto não for o que você queria; menos barulho e se permitir perde-se no tempo e quando isto acontecer ter a humildade de se reconhecer dependente dos outros. Afinal, quem não é?

"Por isso também precisamos uns dos outros, e uns aos outros nos pertencemos." Romanos 12:5


Lídia Bulascoschi Cagnoni.